O Meu Espírito

Decidi criar finalmente um blog para escrever o me vai no espírito. Seja um desabafo, algo que li ou vi, uma curiosidade, uma citação... o que me apetecer. Para começar, achei boa ideia contar um pouco sobre mim. Contar algo sobre o meu estado de espírito, algo que talvez algumas das pessoas que me conhecem não imaginam ou têm apenas uma pequena ideia. Sendo um blog, espero também ajudar alguém que esteja neste estado ou que conheça alguém.

Tenho 22 anos. No dia que criei este blog (ontem) fez precisamente 1 ano que me foi diagnosticada uma depressão. Até aos meus 16, 17 anos, o meu único problema era apenas tirar boas notas para garantir a entrada no Instituto Superior Técnico.

Para resumir a história... aos 17 anos perdi a minha tia mesmo perto do Natal com um cancro no pulmão. Foi um golpe duro, foi uma luta imensa e o choque de perder alguém que me era tão querido, que apenas tinha 50 anos e tanto para dar foi grande. No ano seguinte, mais uma vez no Natal, perdi a minha avó com um período final de gangrena um pouco dramático. Enfim, enquanto isto, tive a alegria de entrar na faculdade e, ao contrário do que eu esperava, gostei muito dos colegas mas cedo percebi que o IST tinha uma influência negativa em mim. Muitos professores (nem todos felizmente!) não eram professores... não no sentido pedagógico. Já um pouco insegura, sentia que não devia ir para aulas em que não concordava com a maneira de estar do professor... onde ouvia pessoas cultas mas que se exprimiam de forma convencida e se esforçavam por nos fazerem sentir que metade dos que ali se encontravam simplesmente não deviam estar ali... Nunca fui pessoa de me conformar com este tipo pedagogia... logo... no primeiro ano, apenas no segundo semestre, chumbei, pela primeira vez, algumas cadeiras.

No ano seguinte o desânimo foi tomando conta de mim. No terceiro ano, já ia perdendo a fé em mim. No fim de Novenbro de 2005 a minha outra avó de 99 anos faleceu. Eram demasiados pensamentos negativos. Felizmente, nessa altura tinha começado há pouco menos de um mês a relação com uma das melhores presenças na minha vida: o meu namorado!=) O carinho enorme e o apoio incondicional que me deu, nessa altura e até hoje, foi, na minha opinião, aquilo que me fez aguentar o ano léctivo até ao fim e manter a minha vontade de melhorar ainda hoje. Apesar de um verão passado a realizar o sonho de viajar de comboio pela europa, o começo do passado ano léctivo foi uma descida vertiginosa até ao diagnóstico no dia 15 de Dezembro de 2006.

Quando finalmente segui o conselho da minha mãe e do meu namorado em ir ao psiquiatra já sabia o que tinha. As minhas buscas pela net tinham-me revelado que possuia quase todos os sintomas comuns da doença, entre os quais:

  • cansaço e perda de energia
  • sentimento de tristeza persistente
  • diminuição do interesse por actividades que antes eram prazerosas
  • perda de auto-confiança e auto-estima
  • dificuldade de concentração
  • sentimentos de culpa ou inutilidade
  • sentimentos de desespero
  • sono a mais
  • vontade de estar só
  • pensamentos de morte
  • inquetação e irritabilidade
Também vivia numa constante ansiedade, como se fosse ter um teste daí a 5 minutos, e sofri vários ataques de pânico, cuja sensação era horrível e esgotante.


Hoje,

um ano depois de ter começado a medicação e o tratamento, sinto ainda uma grande impotência. Para quem nunca teve uma depressão é dificil compreender e apoiar. Para mim também é difícil de explicar. Um belo dia percebi que não ia melhorar sem ajuda, que estava só a adiar, a pensar que as coisas iriam melhorar sem ver que não era isso que se passava. Nesse dia, quando entendi, marquei a consulta e comecei a tratar-me.

Hoje, o meu maior medo é não conseguir melhorar mais; é sentir que os medicamentos fazem o seu trabalho mas eu posso facilmente deitar tudo a perder, esgotar as pessoas à minha volta, perder mais anos da minha vida sem ver um caminho certo, um plano por onde seguir... cada dia é um dia e já não quero ambicionar a longo prazo... tenho ainda bastante medo de cair de novo ou ainda mais.

Uma coisa que custa muito explicar aos outros é que eu não estou a "olhar pra parede" o tempo todo e não sou (embora pareça) preguiçosa. Um depremido facilmente passa por mandrião e, no entanto, por vezes é nesses momentos de aparente "mandriagem" que se "travam as grandes batalhas" dentro do nosso espírito. Enfim, só compreenderá quem já passou por isto... ás vezes até vestir e sair de casa se torna uma batalha. Este primeiro ano de batalha não fiz nenhuma cadeira, não me orgulho disso. Não sinto que passei o ano em "férias"; foi um ano de batalha. O meu sonho de futuro parece cada vez mais longe quando os sonhos de todos os outros parecem estar mais perto. Sinto-me para trás, a empurrar uma rocha... mas ao poucos ela parece rolar.

Obrigada a todos os que me ajudaram e ajudam a recuperar, que demonstraram a amizade quando mais precisava. Obrigada também às pessoas que mais amo e que me retribuiram esse mesmo amor a dobrar.

Fica aqui o desabafo para todos os que queiram ler. E agora... chega de falar de mim e do meu estado de espírito. Vou mas é por este blog a funcionar. E sem testamentos chatos como este! =P Prometo! ;-)

9 comentários:

Anónimo disse...

A tua luta é uma inspirição e motivo de orgulho, e vais sempre contar com o meu apoio. As coisas vão melhorar, como já tem vindo a acontecer!
O teu namorado.

Anónimo disse...

olá :)

adoro-te.

e fiz subscribe ao teu blog!

sahba

Anónimo disse...

acabei de me aperceber que talvez não percebas qual sahba é.

o de portimão, o de origem iraniana, o da "carta do sahba", o que estuda no ist, aquele que curte tocar a 14ª sonata de Beethoven no piano! espero que dê para te localizares.


;)

C3-PO disse...

Sim, tenho uma ideia... =P És só aquele que me inspirou a ter um blog há pra aí uns 3 anos!
Esse blog já não existe mas agora tenho este (parece que o "bichinho" ficou!).
Continua a aparecer e a deixar comentários quando te apetecer.

Beijinhos Grandes*

Anónimo disse...

Olá..!
tenho 18 anos e entrei para o ensino superior este ano...também comecei a sentir vários desses sintomas que referiste e bastou-me dar uma volta na net para me aperceber que estava perante uma depressão. tens aqui mais uma pessoa que te percebe. É bom saber que não somos únicos apesar de parecer que o nosso caso é sempre o mais complicado...estou assim há 5 meses mas parece que nunca mais vai passar não é? Olha, deixo-te aqui uma sugestão, um livro..Chama-se "A inutilidade do sofrimento" e é de uma psicóloga espanhola chamada María Jesús Álava Reys, acho que te vai ajudar..A mim ajudou-me.
Vamos continuar a nossa luta sem preder a esperança porque ambos sabemos que a vida vale a pena!
E ainda por cima quando há pessoas tão especiais. Também tenho namorada que me está a apoiar muito. Vamos vencer a doença, se é que se pode chamar doença tá?

C3-PO disse...

Olá!

Obrigada por teres deixado o teu comentário! Tens razão, realmente é bom saber que não somos os únicos. Parece que ninguém nos entende verdadeiramente e nós próprios achamos que não nos deviamos sentir assim... afinal toda a gente à nossa volta parece estar bem...
Vou seguir o teu conselho e procurar o livro.

Muita força para ti, porque realmente vale a pena!
Ainda bem que tens alguém que te apoia como a tua namorada (os meus parabéns para ela, pois ambos sabemos como pode ser desesperante tentar ajudar um deprimido nas piores alturas e estar lá para nós).

Vamos vencer sim! ;-)

Anónimo disse...

Olá mais uma vez! Conseguis-te encontrar o tal livro? Se quiseres deixa o teu mail para falarmos, acho que pode ser útil para os dois..estou realmente com vontade de descobrir as origens desta "coisa" e dar a volta por cima e ajudar toda a gente que esteja como nós!
Força mais uma vez! fica bem

C3-PO disse...

Olá!

Não ainda não encontrei o livro. =( Vou procurar talvez quando vierem aí as feiras do livro. Se quiseres mandar-me algum e-mail podes mandar para xpto1331@hotmail.com.

Fica bem!

Anónimo disse...

Ok, Obrigado. Já te enviei um mail.

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